Os grandes intérpretes de Amadeus
Maria Augusta Gonçalves
Publicado no JL – Jornal de Letras Artes e Ideias de 18 de Janeiro de 2006


No início de 1974, Maria João Pires arriscava a gravação das 18 Sonatas de Mozart, numa editora distinta como era a Denon. A jovem pianista vencera pouco antes o Prémio Internacional Beethoven e começava a carreira internacional. Era uma desconhecida. O arrojo, no entanto, marcou a leitura destas obras e elevou Maria João Pires à primeira linha dos grandes intérpretes mundiais. As Sonatas surgiam límpidas, elegantes, conscientes da exaltação e do drama.


Pouco depois, a pianista portuguesa gravava, com o maestro Armin Jordan, para a determinante Erato, cinco Concertos, as Sonatas K.284 e 457, mais a Fantasia K.475. Seguir-se-ia a entrada no catálogo da prestigiada Deutsche Grammophon (DG). Com o maestro Claudio Abbado e a Orquestra de Câmara da Europa, Maria João Pires fazia os mais importantes Concertos e, depois, as Sonatas para piano, para violino e piano e os Trios, com Agustin Dumay. Em 2003, no Concerto da Europa da Filarmónica de Berlim, dirigido por Pierre Boulez, era de novo convidada a tocar Mozart. A memória dessa leitura do Concerto nº20, em Ré menor, encontra-se editada em DVD, pela EuroArts.


Em 1991, no anterior Ano Mozart, Maria João Pires e a soprano Barbara Hendricks formariam uma das mais marcantes parcerias da época, para a interpretação dos «lieder» do compositor. O recital passou pelas maiores salas de concerto, veio à Fundação Gulbenkian, em Lisboa, e foi gravado para a EMI Classics.


Hoje, a pianista portuguesa permanece uma artista de referência da DG, que integra no catálogo as suas interpretações-chave do repertório romântico (Beethoven, Schubert, Chopin) e anterior (JS Bach). Porém, em 1999, quando a Universal lançou a série Grandes Pianistas do Século XX, o duplo volume dedicado a Maria João Pires concentrou-se, em particular, nas obras de Amadeus.
Maria João Pires não é um caso isolado, em Portugal, no que diz estritamente respeito à qualidade das interpretações de Mozart. Porém, o reconhecimento que grandes editoras internacionais fazem do seu trabalho, há mais de três décadas, contrasta em absoluto com o que se passa em Portugal e com outros músicos portugueses.


A pianista Helena Sá e Costa, antiga aluna de Edwin Fischer e durante muitos anos professora convidada dos cursos do Mozarteum de Salzburgo, foi reconhecida grande intérprete de Mozart, desde meados da década de 1930. Hoje, da sua arte, restam algumas gravações, reunidas pela PortugalSom, e os testemunhos dos arquivos da RDP. A memória de Helena Sá e Costa permanece no entanto nas várias gerações de alunos, como Adriano Jordão ou Pedro Burmester, que a acompanharam entre o Conservatório do Porto e os cursos de Salzburgo.


A Festa da Música de 2002, dedicada a Haydn e Mozart, revelou outro grande intérprete português do repertório clássico: o pianista Jorge Moyano. À parte o CD da própria Festa, não existem provas da excelência atingida nesses recitais de Lisboa e Nantes. Este ano, porém, Jorge Moyano regressa a Mozart para uma série de concertos a realizar em Lisboa, Porto e Viseu. O compositor e regente César Viana também se aventurou pelo universo do compositor de Salzburgo, num disco gravado para a EMI, com a Sinfonia B. O CD toma o nome Coluna de Harmonia, reúne música de cena para Thamos, Rei do Egipto, cantatas, adágios, música fúnebre e conta com o Grupo Vocal Olisipo, de Armando Possante.


A discografia de referência de Mozart, no entanto, começa bem longe e vai muito além do que a própria memória recorda, sendo múltiplas as escolhas permitidas. Mas há nomes obrigatórios que contribuem decisivamente para a revelação das obras: os maestros Karl Boehm, Josef Kripps e Neville Marriner, vindos de gerações mais antigas, Nikolaus Harnoncourt, John Eliot Gardiner, Frans Brüggen e Christopher Hogwood, que marcam a interpretação mais recente, e muitos novos músicos que beneficiam de anos de investigação musicológica, assumindo riscos, através da escolha dos instrumentos e da abordagem das obras, como Andreas Staier, Viktoria Mullova ou Leif Ove Andsnes, para apontar apenas vias bem distintas da actual interpretação.


Ao mesmo tempo, permanece impossível conhecer as Sonatas de Mozart, por exemplo, sem as ouvir por Murray Perahia, Alfred Brendel, Claudio Arrau, Rudolf Serkin ou Paul Badura-Skoda. Do mesmo modo, seria impossível imaginar os Concertos para piano sem Malcolm Bilson, Brendel ou Perahia, Clifford Curzon, Clara Haskil ou Robert Casadesus. Muito do que se conhece hoje dos Quartetos de Mozart, continua a passar pelas leituras do Quarteto Amadeus, muitas delas vindas do «jubileu» de 1956, ou pelo Quartteto Italiano. Mas há algo de essencial sobre o compositor que tanto o Quarteto Mosaïques como o Festetics souberam revelar, nos últimos quinze anos. A discografia de Mozart permite igualmente reter momentos históricos a cuidar: as árias cantadas por Elly Ameling, Teresa Stich-Randall, Elizabeth Scwarzkopf, Gundula Janowitz, Lucia Popp ou Victoria de Los Angeles, as vozes de Dietrich Fischer-Dieskau, Hans Hotter, Hermann Prey, Walter Berry ou todas as óperas que Karl Boehm dirigiu.


O ano Mozart justifica ainda lançamentos que se prefiguram importantes. Os mais próximos anunciam as Sonatas K.330-332 e K.457, por Mikhail Pletnev, os Trios com piano, por Anne Sophie Mutter e Andre Previn, ambos na DG; os Concertos para violino por Andrew Manze, na Harmonia Mundi, por Maxim Vengerov, na EMI, e por Giuliano Carmignola, na Brilliant; árias pelo soprano Renée Fleming e a pianista Mitsuko Ushida, na Decca; e novas versões das óperas mais conhecidas do repertório, por Claudio Abbado ou Daniel Harding, com vozes de Magdalena Kozena, Barbara Bonney ou Angela Georghiu.


As primeiras integrais de referência da obra do compositor já estão disponíveis e são sedutoras. A Brilliant Records lançou uma caixa de 170 CD, que alia a qualidade das interpretações ao preço muito baixo. A edição privilegia as versões com instrumentos em uso na época e agrupamentos como a Academia Mozart de Amsterdão, de Japp Ter Linden, La Petite Bande, de Segiswald Kuijken, ou a Wiener Akademie, de Martin Haselboeck. A integral Brilliant contempla ainda cantores como Barbara Hendricks, Christine Oelze, Sandrine Piau, Peter Schreier, Thomas Hampson ou Hartmut Holl, músicos como o violinista Salvatore Accardo, o pianista Bruno Canino ou regentes como Raymond Leppard, Charles Mackerras ou Ton Koopman. Além da integral, o catálogo Brilliant apresenta ainda outras importantes interpretações de Mozart, como as 18 Sonatas, Rondos e Fantasias por Maria João Pires.


A Philips retoma a Mozart Edition de 180 CD de 2001, versão revista do lançamento de 1991, reunindo as mais importantes gravações do catálogo Universal (DG-Decca-Philips). Aqui cruzam-se Edith Mathis, Lucia Popp, Jessye Norman e Mirella Freni, Arthur Grumiaux, Alfred Brendel, Leopold Hager, Ton Koopman e a Orquestra Barroca de Amsterdão, o Quartetto Italiano, a Academia de St. Martin-in-the-Fields e Neville Marriner, Hans Holliger e o Netherlands Blazers Ensemble, Edo Waart, Katia e Marielle Labèque, o Wiener Mozart Ensemble, Colin Davis e a Orquestra Sinfónica da BBC, a Orquestra da Rádio da Baviera e muitas outras que sustentaram o esplendor de Mozart.


Além da Philips e da Brilliant, com publicações já efectuadas, outras editoras retomam conjuntos de gravações do seu catálogo, como a Warner, a Harmonia Mundi, a Naxos ou a Capriccio, detentora das interpretações de Sandor Végh, um dos maiores trunfos entre as edições do Ano Mozart de 1991.
A par da discografia, é ainda necessário recordar dois filmes que tocam a essência de Mozart: Don Giovanni, de Joseph Losey, com Ruggiero Raimondi e Kiri te Kanawa, sob a direcção de orquestra de Lorin Maazel; e A Flauta Mágica, de Ingmar Bergman, fiel à exaltação da música, de Mozart e da vida.



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