Comemorações mundiais
O ano mágico de Mozart
Maria Augusta Gonçalves
Publicado no JL – Jornal de Letras Artes e Ide ias de 15 de Fevereiro de 2006


Quinze anos fazem diferença. E o que se ouviu no Ano Mozart de 1991 não será exactamente o mesmo de 2006. Então, assinalavam-se os 200 anos da morte do compositor. Agora, festejam-se os 250 anos de vida. Entre um momento e o outro, decorreram períodos essenciais de investigação musicológica, intensificou-se a abordagem das obras numa perspectiva histórica, assumiram-se muito mais riscos em campos tão distintos como a escolha dos instrumentos ou a encenação em palco. No conjunto, aumentou o número dos grandes intérpretes, aumentaram as escolhas, expandiu-se a percepção da obra. O que apenas confirma a mesma verdade de sempre: Mozart é universal e eterno.


O impacte do Ano Mozart em todo o mundo comprova-o. De Salzburgo, onde nasceu, a Tóquio e Nova Iorque, os acontecimentos sucedem-se. E parece não existir uma única cidade, um único teatro, uma única sala de concerto, que não inclua Mozart na programação. É um ano mágico. Áustria coloca-se no centro dos acontecimentos, com Salzburgo e Viena a comandarem as operações. Mas Mozart está por todo o lado. E mobiliza figuras tão distintas entre si como os compositores John Adams e Kaija Saariaho, os encenadores Peter Sellars e Bernhard Lang, o coreógrafo Mark Morris ou a arquitecta iraquiana Zaha Hadid, prémio Pritzker em 2004.


O Festival de Salzburgo apresenta, pela primeira vez, numa só edição, todas as óperas de Mozart, as 22 obras para palco, de Apollo et Hyacinthus e La Finta Semplice a La Clemenza di Tito e A Flauta Mágica. As óperas serão dirigidas por maestros tão importantes como John Eliot Gardiner, Pierre Boulez, Daniel Barenboim, Nikolaus Harnoncourt, Marc Minkowski, Ton Koopman, Simon Rattle, Daniel Harding, Valery Gergiev, Riccardo Muti ou Roger Norrington. O Festival decorre de 21 de Julho a 31 de Agosto, e tão pouco deixará de fora as versões para teatro de marionetas. Ponto alto será a inauguração de Uma Casa para Mozart, novo nome para a histórica sala de Salzburgo, Kleines Fiestspielhaus. Na reabertura, a Casa receberá As Bodas de Fígaro, dirigidas por Harnoncourt.


Para lá do Festival, o Mozarteum de Salzburgo organiza em permanência recitais e concertos que vão contar com intérpretes como Renée Fleming e Mitsuko Ushida, Thomas Hampson e Leonidas Kavakos, Muti, Harnoncourt ou Norrington. As Semanas Mozart repartem-se tematicamente pela obra lírica, sacra, para câmara, sem esquecer «correspondências» com os criadores que antecederam Mozart, como JS Bach e Johann Christian, e aqueles que lhe sucederam, como o contemporâneo Salvatore Sciarrino. No Festival da Primavera, será interpretada toda a música de câmara, com destaque para os Quartetos que, no caso dos primeiros, regressam à sala onde foram originalmente tocados, a Tanzmeistersal, da residência de Mozart.


Em Viena, as grandes salas recebem os maiores intérpretes actuais do compositor. Nos programas diários sucedem-se maestros como Seiji Osawa, Simon Rattle, Christian Thielemann, Harnoncourt, Harding, cantores como Anne Sophie von Otter, Cecilia Bartoli, Angelika Kirchschlager, Placido Domingo e Thomas Quasthoff, e anunciam-se encenações de todas as óperas, com destaque para Idomeneo, Lucio Silla, Don Giovanni, As Bodas ou La Clemenza di Tito e A Flauta Mágica, que ocuparão, quase em permanência, os palcos da Staatsoper, da Volksoper, do Theater an der Wien, onde foi criada A Flauta Mágica, e do Burgtheater, que recebeu a estreia de O Rapto. Em Maio e Junho, o Festival Mozart apresentará uma nova encenação de Zaïde, pelo norte-americano Peter Sellars, e Harnoncourt irá dirigir a Missa da Coroação, as primeiras oratórias e as três últimas sinfonias, entre Abril e Dezembro. O pianista Maurizio Pollini apresentará as suas Perspectivas de Mozart, em oito diferentes recitais. As festas de Viena contemplam ainda o espectáculo I Hate Mozart, de Barnhard Lang.


O fecho do Ano Mozart, em Viena, estrutura-se em redor de New Crowned Hope, série de acontecimentos definida pelo encenador Peter Sellars, que vai buscar o título à Música Maçónica. New Crowned Hope (Nova Esperança Coroada) decorre de Novembro a Dezembro e congrega as áreas da música, da arquitectura, das artes plásticas, do cinema e da dança. Os acontecimentos organizam-se em três áreas temáticas, inspiradas em obras de Mozart: A Transformação, n'A Flauta Mágica, Reconciliação, na Clemenza di Tito, e Recordação/Memória, sobre o Requiem.
Aqui destacam-se as novas obras dos compositores John Adams (A Flowering Tree, ópera em um acto), Lemi Ponifasio (Requiem) e Kaija Saariaho (La Passion de Simone, «caminho musical em 15 estações»). New Crowned Hope integra igualmente os bailados New York, de Faustin Linyekula, Mozart Dances, de Mark Morris, e Pamina Devi, uma revisitação de A Flauta Mágica, por Sophiline Cheam Shapiro. A iniciativa passa ainda pela divulgação de novas cinematografias e por áreas musicais muito além da tradição europeia, como os sons do compositor argentino Osvaldo Golijov, o jazz de Maria Schnneider e a inspiração étnica de Rokia Traoré.
O Museu Albertina apresenta a exposição do Instituto Da Ponte sobre o Tempo de Mozart, desenhada pela arquitecta Zaha Hadid, vencedora do Prémio Pritzker em 2004. E a Casa de Mozart, na Domgasse, a única residência vienense do compositor que permanece de pé, repõe a traça da época e deixa perceber a vida diária do compositor. Todos os acontecimentos do Ano Mozart, na Áustria, estão reunidos em www.Mozart2006.net.


Em Espanha, Mozart também é palavra de ordem. As óperas de Madrid e Barcelona abrem-se para O Rapto do Serralho e Idomeneo (www.teatro-real.com e www.liceubarcelona.com). Em Fevereiro, o Requiem, a Missa em Dó menor, as três últimas Sinfonias e os concertos para piano em Lá maior e Ré menor serão levados a Madrid, Oviedo, Valência e Tenerife pelo regente John Eliot Gardiner, um dos grandes intérpretes de Mozart (www.monteverdiproductions.co.uk). A Coruña promove o Festival Mozart de 05 de Maio a 02 de Julho, mobilizando os pianistas Grigory Sokolov e Christian Zacharias, o Quarteto Keller, além da Orquestra Sinfónica da Galiza. O Festival integra ainda a apresentação de várias óperas, «contrapondo» Mozart às origens do drama (Monteverdi) e ao que se seguiu (de Rossini a Stravinsky), e o Congresso Internacional Don Giovanni Ontem e Hoje. Em cada dia do Festival há sempre Mozart en la Calle, para atrair niños e outras pessoas mais altas (www.festivalmozart.com).


Os 250 anos de Mozart, em Espanha, conjugam-se com os centenários de Vicente Martín y Soler e de Juan Crisóstomo Arriaga. O primeiro é contemporâneo do compositor de Salzburgo, compôs com Lorenzo Da Ponte (Una Cosa Rara, La Capricciosa Corretta), viveu em Londres, Nápoles, Viena e acabou os dias ao serviço da corte russa, o que lhe valeu o cognome «Mozart de São Petersburgo». Em 1806, ano em que morria Soler, nascia Arriaga. Não chegaria a completar 20 anos, mas deixou peças de câmara e uma ópera, Los Esclavos Felices, que constituem legado suficiente para se perceber o talento. Mozart, Soler e Arriaga mobilizam o cravista e regente Andrea Marcon, Paul Dombrecht e o agrupamento Il Fondamento, o Quarteto Mosaïques e as orquestras Les Talents Lyriques, de Christophe Rousset, e La Capella de’Turchini, de Antonio Florio.


Em Nova Iorque, as celebrações Mozart abriram no Lincoln Center, com o Requiem (www.lincolncenter.org). A Filarmónica de Nova Iorque retoma a tradição Mozart do seu repertório e destaca o compositor nas iniciativas para crianças, em particular nos Concertos para Jovens e na Internet (http://www.nyphilkids.org). A Metropolitan e a New York City Opera também centram a programação em Mozart. A Antena 2 garante a transmissão de várias encenações (www.metoperafamily.org e www.rtp.pt ). Em Tóquio, as Folles Journées/Festa da Música abandonam o Barroco da edição europeia e dedicam-se ao compositor de Salzburgo.


Na Europa, as cidades por onde Mozart passou fazem dele o centro das atenções. Praga, na República Checa, que recebeu a estreia de Don Giovanni, promove acontecimentos diários que podem ser consultados em www.mozartprague2006.com. Milão abre as portas do Scala às óperas, sem esquecer Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido, de José Saramago e Azio Corghi, depois da estreia no São Carlos, em Lisboa, em Março (www.teatroallascala.org e www.saocarlos.pt). A Ópera Nacional de Paris intensifica as iniciativas, em redor da obra lírica de Mozart (www.operadeparis.fr), sob a direcção de Gerard Mortier, antigo programador de sucessivas e marcantes edições do Festival de Salzburgo. A Ópera Cómica, além da programação regular, dedica ainda o mês de Maio a obras menos conhecidas, sob o lema Quoi de neuf, Monsieur Mozart? (www.opera-comique.com).


Em Londres, o Barbican Hall realiza o Festival Mostly Mozart, em Junho e Julho, com Les Arts Florissants, de William Christie, e o Concerto de Colónia (www.barbican.org.uk). A Academia de Saint Martin-in-the-Fields, uma das melhores intérpretes de Mozart, mantém o compositor em programa, até ao fim do ano (www.stmartin-in-the-fields.org). A Sinfónica de Londres (LSO) abre as portas ao público durante os ensaios de Mozart e intensificará a presença do compositor nos programas para as escolas e nos concertos da hora do almoço, transmitidos pela BBC3 (www.lso.co.uk e www.bbc.co.uk/radio3, em directo na Internet). A LSO promoverá ainda a audição de obras de câmara, destacando-se a integral dos Quartetos de cordas e recitais de canto, para os quais anuncia a soprano Sally Matthews e a contralto Sara Mingardo.


Na pequena cidade alemã de Augsburgo, terra natal de Leopold Mozart, pai do compositor, decorre uma das mais discretas e constantes homenagens. Todos os dias serão interpretadas obras de Mozart, em diversos pontos da cidade, por músicos locais e outros mais conhecidos. Dos alunos do conservatório aos violinistas Gidon Kremer e Elizabeth Wallfisch, do Quarteto de Cordas de Augsburgo à Orquestra Tafelmusik, de Bruno Weil, do teatro local de marionetas à Orquestra da Ópera da Baviera, todos garantem a música do compositor de Salzburgo. A cidade organiza ainda o Festival Internacional de Violino, entre Maio e Junho, e a Grande Noite de Mozart, a 20 de Maio, levando grandes intérpretes à Maximilianstrasse, no centro histórico. As iniciativas Mozart de Augsburgo só param a 31 de Dezembro e podem ser consultadas em www.mozartstadt.de.
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