Mozart
A simplicidade da perfeição
Maria Augusta Gonçalves
Publicado no JL – Jornal de Letras Artes e Ideias de 18 de Janeiro de 2006
Nasceu há 250 anos, no arcebispado de Salzburgo, com o nome Johannes Chrisostomus Wolfgang Theophilus Mozart. Era Mozart, Wolfgang Amadeus Mozart, quando morreu 35 anos mais tarde, em Viena. Foi menino prodígio, exibido nos principais centros musicais da Europa, compositor precoce e um dos mais produtivos em toda a música ocidental. A tradição define-o o expoente do rococó. Encerra-o no conservadorismo, por oposição a Joseph Haydn ou Beethoven, e atribui-lhe a reputação da leveza e da graciosidade. A perfeição das suas obras está na base do adjectivo que quase se estabeleceu como sinónimo do seu nome, genial. Mas dizer génio, é dizer pouco. Mozart é o dom da humanidade, a consubstanciação de tudo o que ela tem de trágico e burlesco, o milagre terreno da criação.
Tome-se a Sinfonia nº 40 como ponto de partida. Das três últimas, é a única em tonalidade menor, o que lhe atribui uma certa sensação de tragédia, de sofrimento e de reacção a esse sofrimento, logo patente no início. Esta é uma das mais conhecidas obras do compositor, uma das mais tocadas em salas de concerto, das mais citadas em colectâneas, talvez a mais usada em publicidade. A Sinfonia, no entanto, em momento algum se reduz ao lugar-comum. Seja no confronto temático que marca a exposição do primeiro andamento, seja no desenvolvimento ou na reexposição dos temas iniciais, seja no alongamento da ponte que antecede a coda, seja no Andante ou no Minuete, a estrutura clara, permite sempre a descoberta de elementos essenciais. Nota a nota, compasso a compasso, tudo se define - de um andamento passa-se a outro e é possível a identificação, mesmo a partilha, com o drama interno que aí se desenha.
De repente, no 4º andamento, Allegro assai, algo absolutamente inesperado e deslumbrante acontece. A obra obedece aos mais exigentes padrões formais do classicismo, sendo facilmente reconhecível a forma sonata: apresentação do tema inicial em duas partes, uma repetição; apresentação do segundo, que ao primeiro se opõe, seguido de uma espécie de síntese que marca o termo desta primeira secção do andamento e lança a «ponte» para o desenvolvimento - de algum modo, a «substância» da obra -, antes da reexposição final dos temas ouvidos no começo. É no fecho desta «ponte», no momento em que se pressente o início do desenvolvimento, que o milagre acontece. De repente, Mozart parece abandonar toda a expressão como até então era concebida: a orquestra toca em uníssono as mesmas notas, durante oito compassos - oito marcações -, e só depois regressa ao quadro esperado.
Estes oito compassos têm uma dimensão dramática poderosa. Por um lado, sublinham o final de um ciclo, reforçam o começo de outro mas, acima de tudo, subvertem as estritas regras da forma clássica. Aparecem como se Mozart abrisse a porta e antevisse um outro mundo, pressentisse uma concepção da música, explorada muito mais tarde. E desaparecem, por terem esgotado a sua função. Mozart não precisava de atravessar a fronteira.
Os compassos que precedem o desenvolvimento do último andamento da 40ª Sinfonia podem ser únicos e parecer inexplicáveis no contexto da época. Mas fazem todo o sentido à luz do compositor. Mozart impõe algo da mesma perplexidade nos primeiros compassos do Quarteto As Dissonâncias, no seu andamento lento e na hesitação do Adágio do Concerto para piano em Lá maior ou no Rondo do Concerto em Ré menor. Exige o encontro com a reflexão inquieta da Fantasia K.475 e da Sonata K.457, para pianoforte. Determina o carácter experimental do Quinteto K.452, pelos instrumentos aí reunidos (madeiras, metais, piano), e não hesita perante as possibilidades programáticas abertas pela obra vocal sacra. O aparente equívoco estilístico que sustenta Don Giovanni, a densidade humana que emerge do humor d’As Bodas de Fígaro ou o encantamento vital, profundo, que sustenta A Flauta Mágica, reflectem o mesmo carácter de Mozart. Ele é tudo o que a música tem de indissociável da vida. E é nessa relação intrínseca que se consubstancia a genialidade da obra.
Digressões
Mozart nasceu em Salzburgo a 27 de Janeiro de 1756. Era filho de Anna Maria Pertl e de Leopold Mozart, compositor e violinista do arcebispo da cidade-Estado. A formação familiar deu origem a dois prodígios: Nannerl, a filha mais velha, e Mozart, ele mesmo. Aos cinco anos, o menino compunha. E iniciava as digressões com a irmã e o pai, pelas grandes salas e principais cortes europeias.
Apresentou-se na Alemanha e na Áustria. Em Paris, visitou Versalhes, que celebrou as primeiras sinfonias do compositor; em Inglaterra, conheceu Johann Christian Bach, determinante na sua formação e na importância que a forma concerto viria a ter na sua obra. Em 1766, regressava a Salzburgo, onde, um pouco mais tarde, viria a estrear a primeira ópera, La Finta Semplice, e a Missa K.66. Mozart tinha 12 anos e a composição era agora o seu rumo.
A primeira viagem a Itália, para a qual partiu em Dezembro de 1768, viria a revelar-se determinante. Em Milão, conhece os compositores que marcaram o período de transição, explorando novas formas para lá do Barroco, como Giovanni Battista Sammartini e Niccolò Piccinni. Seguir-se-ia Roma, onde o papa Clemente XIV lhe atribuiu o título de Cavaleiro da Espora de Ouro. Maior distinção, o contacto com o Miserere, de Gregorio Allegri, na Capela Sistina, obra que transcreve de memória, subvertendo a reserva do Vaticano e alimentando a lenda do seu próprio prodígio. A ópera napolitana e a reforma ensaiada por Niccolò Porpora também o marcaram.
A actividade de Mozart centra-se cada vez mais na composição. Escreve as Sinfonias K.95, 97 e 81, duas árias de concerto e um Kyrie a cinco vozes. Estreia, em Itália, quatro árias sobre textos de Metastásio, e a ópera Mitridate, Re di Ponto, no regresso por Milão, em 1770. O sucesso justifica nova encomenda, que dará origem a Lucio Silla, e Pádua receberá igualmente a oratória La Betulia Liberata.
Aos 16 anos, Mozart é nomeado primeiro violino da orquestra de Salzburgo. Mas o meio afigura-se demasiado pequeno e extremamente conservador para a sua capacidade criativa. As viagens tinham-no posto em contacto com expressões musicais que o fascinavam, e o estilo galante parecia insuficiente para quem se cruzara com compositores italianos e o impacte da Escola de Mannheim, para quem conhecia a obra de Joseph Haydn e tomara contacto com a escrita de J.W.Goethe. Mozart não esconde, por tudo isso, a vontade de encontrar um novo posto. A ópera La Finta Giardiniera obtém sucesso em Munique, em 1774, e o Concerto nº9 para pianoforte, Jeunehomme, constitui outro dos seus maiores truinfos, em 1776. No ano seguinte abandonará Salzburgo. O pai, Leopold, mantém-se na cidade-Estado.
Apesar da recepção positiva na capital da Baviera, será em Mannheim que Mozart se sentirá «em casa». Mannheim é então a cidade da música, por excelência, e a «linhagem» Stamitz oferece-lhe uma probabilidade de progressão à medida da sua curiosidade. Em 1778, encontra Aloysia Weber, por quem se apaixona, acabando por sucumbir, mais tarde, à irmã Constance.
A intervenção de Leopold Mozart leva-o de novo a Paris, para descobrir que o interesse de outrora se esfumara. O choque é terrível - a capital francesa, afinal, não revela o menor interesse pelo Concerto para flauta e harpa, nem pela Sinfonia nº 31, Paris, sequer pela celebérrima Marcha Turca. O desânimo aumenta com a morte da mãe, em Julho de 1778, facto que o leva de regresso à cidade natal. Em Salzburgo, Mozart obtém o posto de organista, compondo a série de Sonatas de Igreja, para órgão com cordas e baixo contínuo. Mas o tédio e o aborrecimento sobrevêm, cortados apenas por uma nova encomenda de Munique, a ópera Idomeneo. O sucesso estende-se a todo o império austríaco. E as portas de Viena abrem-se ao compositor. Mozart não hesita.
Fortuna e miséria em Viena
Corre o ano de 1781, Mozart tem 25 anos e, pela primeira vez, encontra-se numa cidade estranha, sem apoio do pai nem de um protector. Instala-se em casa dos Weber, compõe a ópera O Rapto do Serralho, a Sinfonia nº35, Haffner, e casa com Constance. Mozart vive os melhores dias. As encomendas multiplicam-se e a boa recepção das obras afigura-se irreversível. Nada falta ao jovem compositor de Salzburgo, tão pouco os elogios do grande Joseph Haydn.
Datam deste período os impressionantes seis Quartetos de cordas dedicados a Haydn, a Missa em Dó menor, a Sinfonia nº 36, Linz, e os concertos para pianoforte nºs 14 a 18. É nesta altura que Mozart integra a franco-maçonaria e consolida a amizade com o fundador do moderno quarteto para cordas, Papá Haydn. Os Concertos para piano n°s 20 e 21 datam de 1785. No ano seguinte estrearia As Bodas de Fígaro, sobre libreto de Lorenzo Da Ponte, autor com quem viria a trabalhar em mais duas óperas: Don Giovanni, estreada em Praga em 1787, e Così fan Tutte, levada à cena em Viena em 1790. Desta fase datam ainda os Quintetos de cordas K.515 e K.516, apresentados pela primeira vez em 1787.
O triunfo e a fortuna, porém, revelam-se de curta duração. O primeiro sinal vem da fraca adesão do público vienense a Don Giovanni, apesar dos aplausos conquistados em Praga. Uma obra de compreensão difícil para a burguesia da cidade, como diria mais tarde o imperador José II. Entretanto, a morte de Leopold Mozart e a doença de Constance afectam o compositor. Mozart conhece as primeiras dificuldades financeiras e a morte da filha, no ano de 1788, agrava a situação. O retrato interno de Mozart, nesta época, pode ser pressentido nas três últimas sinfonias, que se contam entre as mais belas produções da sua obra. É evidente a tristeza trágica da penúltima, a 40ª, cujo carácter se aproxima da força expansiva do Romantismo.
Em 1790, Viena recusa uma nova ópera, Così fan Tutte. Sucedem-se então a partida de Haydn para Londres e a morte do imperador, deixando Mozart sem qualquer possibilidade de protecção. Mas nunca deixa de compor. No derradeiro ano, conclui dois dos seus maiores dramas, La Clemenza di Tito e A Flauta Mágica, o determinante Concerto para clarinete, além do Requiem, que será concluído pelo aluno Franz Xaver Süssmayr.
Mozart vive sem dinheiro, extenuado de trabalho e de dor. Mas a criação impõe-se e o génio acentua cada vez mais a dualidade sempre presente na sua obra: a leveza, a graciosidade, a par do lugar mais negro da emoção, o lugar íntimo que se afigura eterno. «A música de Mozart nem sempre é sorridente», dizia Helena Sá e Costa, uma das grandes intérpretes do compositor. «Também há o sofrimento». A pianista, então na direcção da Escola Superior de Música do Porto e professora convidada dos cursos de Verão do Mozarteum, em Salzburgo, falava assim, há cerca de 20 anos, alertando os alunos para as exigências impostas pela interpretação das obras do compositor. «Parece simples, mas é muito difícil, por causa dos sentimentos. O intérprete tem de compreender Mozart. Mozart tem a simplicidade suprema das coisas perfeitas, a simplicidade do essencial».
Mozart morreu a 05 de Dezembro de 1791 e foi enterrado no cemitério de Viena, na vala comum dos indigentes.
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