Armando Vara viu-se obrigado a este esclarecimento depois de ter sido constituído arguido no âmbito do processo que deriva da operação "Face Oculta", desencadeada ontem pela Polícia Judiciária - nomeadamente em instalações da REN (Rede Eléctrica Nacional) e da REFER (Rede ferroviária Nacional) - por suspeitas de crimes de corrupção, tráfico de influência, branqueamento de capitais e fraude fiscal na compra e venda de sucata de material ferroviário e num negócio de facturas falsas.
A investigação levou a Judiciárias a mais de 30 locais em todo o país, um deles, segundo a RTP apurou, o próprio escritório de Armando Vara no BCP.
O gestor, que foi um dos homens fortes do Governo socialista de António Guterres, diz aguardar pelas provas que as autoridades venham a exibir sobre o seu envolvimento no processo adiantando estar "absolutamente convicto de que as actuações que desenvolvi enquanto titular de cargos públicos e gestor de empresas, se pautaram por rigorosos critérios de ética. Estou seguro que a investigação em curso confirmará que as suspeitas levantadas carecem de qualquer fundamento".
BCP mantém confiança em Vara
Pronunciando-se sobre o caso, numa comunicação enviada à CMVM o Conselho de Administração do BCP garante que está salvaguardado o regular funcionamento da Administração e que não existe quebra de confiança entre os membros da equipa responsável pela gestão do banco.
"Face às notícias surgidas na Comunicação Social e às palavras dirigidas pelo Sr. Dr. Armando Vara a todos os Colaboradores, o Presidente do Conselho Geral e de Supervisão (CGS) reuniu com o Conselho de Administração Executivo, o qual lhe assegurou estar salvaguardado o regular funcionamento do CAE, não existindo qualquer quebra de confiança entre os seus membros", refere o comunicado.
"O Presidente do Conselho Geral e de Supervisão, considerando estar defendido o interesse da sociedade, aguarda serenamente o apuramento dos factos pelas instâncias competentes", conclui o documento enviado à CMVM, assinado pelo presidente do CGS.
Presidente da REN diz estar de consciência tranquila
José Penedos, presidente da REN (Rede Eléctrica Nacional) e pai de um dos arguidos no processo "Face Oculta", diz-se de consciência tranquila.
À RTP, o gestor garante que a REN está fora desta investigação e rejeita ligações entre o filho Paulo Penedos e aquela empresa.
Confirmando que a SCI, empresa do grupo de Manuel Godinho - único detido na operação da Judiciária - da qual o filho é advogado, é fornecedora da REN, José Penedos afasta contudo qualquer possibilidade de essa empresa ter alguma vez sido objecto de favorecimento em negócios.
José Penedos acrescenta que nada tem a temer, pelo que não pretende demitir-se da liderança da empresa de capitais públicos.
Um detido e 12 arguidos
De acordo com os números avançados pela Judiciária, a operação que incidiu sobre a REN e a REFER resultou na detenção de uma pessoa, tendo outras 12 sido constituídas arguidas no quadro de buscas desenvolvidas em três dezenas de domicílios e postos de trabalho em pontos distintos do país.
O detido é o empresário Manuel Godinho, de Ovar. Manuel Godinho é o homem que alegadamente corrompia as empresas participadas pelo Estado e estaria a preparar-se para fugir do país.
"Foi detido um indivíduo e foram constituídos 12 arguidos, a quem foi determinada a apresentação, oportunamente, às autoridades judiciárias para interrogatório e aplicação das medidas coactivas tidas por pertinentes", referiu a PJ em comunicado.
A Polícia Judiciária explicou ainda que a "investigação em curso tem como objecto a actividade de um grupo empresarial, da zona de Aveiro, que, através de um esquema organizado, terá sido beneficiado na adjudicação de concursos e consultas públicas, na área de recolha e gestão de resíduos industriais".
A rede, alegadamente dirigida pelo empresário Manuel Godinho, funcionaria de forma tentacular, criando uma rede de contactos em cadeia, que garantiam quer os subornos quer o acesso a informações sobre os negócios das maiores empresas com participações do Estado.
Os pagamentos e as tentativas de corrupção passavam por altos quadros de empresas, mas também por funcionários com acesso a informação privilegiada.
O processo "Face Oculta" é um segundo momento da investigação "Carril Dourado", iniciada depois do acidente na Linha do Tua e de um negócio envolvendo Manuel Godinho que levantou muitas suspeitas. A PJ e o Ministério Público admitem constituir mais arguidos e até fazer novas detenções naquele que é considerado um dos maiores casos de corrupção envolvendo empresas com participações do Estado.