por
Carlos Santos Neves, RTP
Toyota encaixa o primeiro prejuízo anual em sete décadas
publicado
16:46
22 Dezembro '08
A valorização do iene deu lugar a uma quebra de 26,7 por cento nas exportações do Japão, indicam números de Tóquio Everett Kennedy Brown, EPA
O gigante da indústria automóvel Toyota prepara-se para fechar o ano com um prejuízo acima de mil milhões de euros. O impacto da crise internacional nas vendas e a valorização do iene face à moeda única europeia e ao dólar ajudam a explicar a primeira perda anual do maior construtor de automóveis do Japão em 71 anos.
As ondas de choque da crise financeira e económica chegaram à maior marca da indústria automóvel japonesa.
A par de outros construtores do país, a contabilidade da Toyota é assolada por uma quebra da procura nos mercados globais. Caem a pique as estimativas de lucros e ganha cada vez mais consistência o cenário de futuros abates de postos de trabalho.
A administração do gigante japonês estima agora em 150 mil milhões de ienes (1,22 mil milhões de euros) os prejuízos a averbar no ano fiscal que terminará em Março do próximo ano. Pela primeira vez desde 1941, o ano em que começou a publicar resultados, a Toyota liberta uma projecção de perdas operacionais.
“As mudanças que atingiram a economia mundial têm uma escala crítica que aparece uma vez a cada 100 anos”, sublinhou esta segunda-feira o presidente executivo do construtor japonês, Katsuaki Watanabe.
O sector automóvel está entre os mais abalados pela crise e o Japão não foge à regra. Em Novembro, assinalou o gestor japonês, a quebra nas vendas de veículos com o símbolo da Toyota foi “muito mais rápida, alargada e profunda do que era esperado”.
Administração omite metas para 2009
A última projecção da Toyota aponta para a venda de 8,96 milhões de veículos em 2008, o que corresponde a um recuo de quatro por cento por comparação com os números de 2007.
Ao contrário de anos anteriores, a administração da empresa evita traçar quaisquer objectivos para o ano que se aproxima.
Nos primeiros momentos da crise, explicou Katsuaki Watanabe, a Toyota apoiava-se nos mercados emergentes para atenuar os efeitos de um naufrágio da procura nos Estados Unidos. Contudo, o terramoto financeiro e económico é hoje transversal.
Os resultados do corrente ano fiscal já obrigaram a administração do gigante japonês a suspender os diferentes planos de expansão da produção e outros investimentos, entre os quais a construção de uma unidade de produção no Sul dos Estados Unidos e o lançamento da produção de um novo modelo na Índia.
O presidente executivo da empresa define mesmo em números a “linha de água”: uma quebra de vendas para os sete milhões de veículos deixará a Toyota em apuros.
Impacto na economia do Japão
Para o analista japonês Koichi Ogawa, da Daiwa SB Investments, os números da Toyota “são muito, muito maus”.
“É possível que eles venham também a cair no vermelho no próximo ano fiscal”, alertou Ogawa, citado pela edição on-line da BBC.
“Isto não é um problema apenas para a Toyota. O que é bom para a Toyota é bom para a economia japonesa”, afirmou.
As contas públicas japonesas beneficiam habitualmente de um excedente comercial que assenta em elevados níveis de procura. Mas a escalada do iene face à divisa norte-americana e ao euro começa a fazer estragos.
As exportações do país sofreram quebras em todos os mercados, com particular incidência nos Estados Unidos (menos 33,8 por cento). As exportações para a União Europeia caíram 3,8 por cento e os carregamentos para a China recuaram 24,5 por cento, a maior quebra dos últimos 13 anos.
Após dois trimestres consecutivos de crescimento negativo, a segunda maior economia do Mundo precipitou-se para a primeira recessão dos últimos sete anos.