Hoje inaugurado ao largo da Póvoa de Varzim, o parque de ondas da Aguçadoura é pioneiro a nível mundial, num investimento de 8,8 milhões de euros (financiados em 15 por cento por apoios públicos).
Apesar de estar ainda em fase "pré-comercial", o objectivo do projecto é viabilizar a utilização de energia das ondas como fonte de electricidade.
Até agora, a responsabilidade do projecto esteve com a empresa portuguesa Enersis e com a parceira tecnológica escocesa Pelamis Wave Power, mas o acordo hoje assinado abriu também o projecto à EDP e à Efacec.
O grupo de investimento australiano Babcock&Brown detém a Enersis, tendo no entanto já tornado pública a intenção de vender a companhia portuguesa.
Nos termos do acordo de parceria hoje assinado, a Pelamis Wave Power surge como parceiro tecnológico, com 23 por cento, com os restantes 77 por cento divididos pela Babcock&Brown (46,2 por cento), Efacec (15,4 por cento) e EDP (15,4 por cento, com opção de compra de mais 15,4 por cento do grupo australiano).
O objectivo é, contudo, que esta parceria ultrapasse o projecto da Aguçadoura e se estenda a outros projectos experimentais na área da energia das ondas, estando já na calha outros parques de ondas semelhantes.
Para o efeito a EDP, a Babcock&Brown e a Efacec criaram também hoje o consórcio Ondas de Portugal, detido a 45 por cento pela eléctrica portuguesa, 35 por cento pela Babcock&Brown e o restante pela Efacec.
O Ondas de Portugal tem como aposta "criar as bases para o desenvolvimento de um `cluster` português na área da energia das ondas".
Segundo disse Leocádio Costa, da Enersis, durante a cerimónia de inauguração do projecto da Aguçadoura, a 1ª fase deste parque de ondas arranca com uma capacidade inicial de 2,25 megawatts (MW)e contempla três máquinas Pelamis, uma das quais já operacional e as outras duas a colocar no local até à próxima semana.
A 2ª fase do projecto prevê uma capacidade de 20 MW e um total de 25 máquinas, o que implicaria um investimento na ordem dos 60 a 70 milhões de euros.
"Se o Governo nos der licenças estamos dispostos a ir até aos 500 MW em três ou quatro zonas diferentes", afirmou Leocádio Costa, adiantando que existem, ao longo da costa portuguesa, vários locais propícios à instalação de parques de ondas.
A demora na atribuição das licenças é, precisamente, um dos argumentos avançados pela Enersis para justificar os mais de dois anos de atraso com que o projecto da Aguçadoura arrancou, a par com alguns problemas técnicos que entretanto surgiram.
Atrasos que, admitiu Leocádio Costa, causaram prejuízos financeiros à empresa e sobretudo de "imagem" e "credibilidade".
Com a entrada da Efacec, o objectivo é uma cada vez maior incorporação nacional no projecto, nomeadamente a nível tecnológico, usando como ponto de partida as capacidades da Pelamis Wave Power.
"O que está previsto é que, na 2ª fase, 40 por cento do projecto seja de fabrico nacional pela Efacec, que é a nossa maior produtora de transformadores e com a qual faz todo o sentido termos falado para formação de um `cluster`", afirmou o responsável da Enersis.
Paralelamente, Leocádio Costa diz estarem a decorrer "negociações" com metalomecânicas portuguesas e com um estaleiro para que venham, eventualmente, a integrar futuramente o projecto.
Apesar de a Aguçadoura estar ainda em fase pré-comercial, a electricidade ali produzida está já a ser injectada na rede de serviço público, prevendo-se que, depois de instaladas as três máquinas Pelamis, se atinjam 2.500 a três mil horas de funcionamento por ano.
Os 2,25 MW de capacidade actualmente instalada são suficientes para iluminar 1.000 a 1.500 habitações.
Contudo, depois de concluído o projecto, espera-se responder na Aguçadoura à procura média anual de electricidade de 15 mil famílias, evitando a emissão de mais de 60 mil toneladas por ano de emissões de dióxido de carbono em centrais convencionais.
Também presente na inauguração, o administrador executivo da Efacec Alberto Barbosa afirmou que a entrada no projecto se enquadra "numa estratégia mais global [da empresa] nas energias alternativas".
Segundo adiantou, o objectivo da Efacec (que, há vários anos, tentou, sem sucesso, uma entrada pioneira na produção de energia eólica) é apostar na área da geração de energia a partir das ondas "agora que está ainda tudo por jogar".
"Ao longo de alguns anos vamos crescer em Portugal e aumentar a potência, mas depois podermos ir fazer o desenvolvimento [da tecnologia] a nível mundial", afirmou Alberto Barbosa.
Na sua opinião, "ao longo da costa portuguesa há várias zonas muito boas" para a instalação de parques de ondas, pelo que a instalação de uma capacidade de 500 MW pode ser "apenas o primeiro passo".
"Portugal pode ser a Dinamarca da energia das ondas. A questão é haver vontade política para a concessão dessa potência", sustentou, destacando a importância de ganho de escala para que seja possível baixar o preço do MW produzido.
De acordo com o administrador executivo da Efacec, a empresa portuguesa tem já "negociações em curso" com a Pelamis "para pegar na tecnologia deles e vir a desenvolvê-la".
"Temos uma experiência muito grande de conversão electrónica de energia a partir de outras fontes renováveis", salientou, revelando que a Efacec foi já fornecedora da Pelamis na tecnologia usada na Aguçadoura e começou, há cerca de um ano, a negociar a sua entrada no projecto.