terça, 09 fevereiro 2010 | 21:38

Economia

por RTP

Afirmação de Cadilhe é "gratuita" e "alarmista"

publicado 20:58 04 Março '08
Teixeira dos Santos não concorda com Miguel Cadilhe na análise que este faz sobre a economia nacional Inácio Rosa, Lusa

O ministro das Finanças classifica de "gratuita", "alarmista" e sem fundamentação técnica a afirmação de Miguel Cadilhe de que "Portugal está em recessão económica grave". Vários economistas concordam com o ministro das Finanças.

Convidado a comentar a afirmação do antigo ministro das Finanças de Cavaco Silva, Teixeira Santos, que se encontra em Bruxelas numa reunião de ministros das Finanças da União Europeia, disse aos jornalistas que essa afirmação não tem nada a ver com a realidade da economia do país.

"Penso que é uma afirmação gratuita, não fundamentada e, de todo em todo, não tem nada a ver com a realidade da nossa economia", disse Teixeira dos Santos.

O responsável pela pasta das Finanças pensa que se trata de uma "afirmação alarmista que em nada ajuda a transmitir uma imagem que deve ser objectiva da situação", qualificando a apreciação de “injusta”.

"A insatisfação quanto ao nível de crescimento não deve autorizar que se fale em recessão, porque, objectivamente, não houve recessão na economia portuguesa", acrescentou Teixeira dos Santos.

O ministro insistiu que, tendo a economia portuguesa crescido nos últimos trimestres 1,8 a 2,0 por cento do PIB, "vir dizer que está numa recessão grave é algo que não tem qualquer fundamentação técnica".

Teixeira dos Santos recusou liminarmente as sugestões de Cadilhe sobre a forma de "cura" para a economia portuguesa: "Não seria propriamente o médico a que eu recorreria".

O ministro acusa Miguel Cadilhe de ter uma visão "muito pessimista" sobre a realidade portuguesa, que é "um pouco histórica" e "contrasta com a opinião da generalidade dos economistas e com todos os critérios técnicos aceites pela profissão na caracterização daquilo que é uma recessão".

Miguel Cadilhe denunciou recessão económica grave


Miguel Cadilhe, economista e antigo ministro das Finanças de Cavaco Silva, defendera na segunda-feira, em Braga, que Portugal "está em recessão económica grave", situação que, na sua opinião, começou em 1999 e se aprofundou a partir de 2003.

Falando num colóquio na sede da Associação Industrial do Minho, Miguel Cadilhe defendeu que "o crescimento económico português tem-se mantido decepcionante" e que o país deveria mesmo solicitar à Comissão Europeia "medidas de protecção especial" para a sua economia, as cláusulas de excepção previstas no Pacto de Estabilidade e Crescimento.

Para o antigo responsável pela pasta das Finanças, "os políticos não gostam que se diga que há uma recessão grave e os eurocratas também não, mas a verdade é que uma economia que teve crescimento negativo em 2003 e mantém vários indicadores negativos desde então está nessa situação técnica".

Na segunda-feira, o economista concluiu que, apesar das recentes alterações feitas aos critérios do défice pela União Europeia, "Portugal mantém índices de produtividade muito baixos, um Estado macrocéfalo e centralizado e uma despesa pública exagerada", que deveria "descer, pelo menos, 27 por cento".

Quanto às perspectivas de futuro da economia portuguesa, o economista mostrou-se pessimista e apresentou a regionalização como uma das reformas que poderá, no seu ponto de vista, impulsionar a economia e distribuir melhor os recursos nacionais.

"Em Abril de 1974 o Estado era macrocéfalo e ainda se mantém assim", lamentou.

Economistas rejeitam recessão técnica em Portugal, mas falam de período prolongado de baixo crescimento

Economistas ouvidos pela Agência Lusa rejeitam a ideia de que Portugal esteja numa recessão técnica, mas falam num período prolongado de baixo crescimento económico, com limitações estruturais ao desempenho da actividade.

Fala-se em recessão técnica "quando existem dois trimestres consecutivos de quedas do PIB, face ao trimestre anterior", explica o professor de Economia da Universidade de Évora José Manuel Belbute.

"Isso significa que o ciclo económico está em fase descendente, mas pode não ter batido no fundo", acrescentou o mesmo especialista.

"A nossa situação económica não é essa", afirmou o mesmo professor, porque a economia portuguesa tem apresentado crescimentos reais positivos.

Fernando Alexandre, professor de Economia da Universidade do Minho, reafirma a mesma ideia quando diz que "não há uma definição única de recessão", mas normalmente fala-se em recessão técnica quando o PIB cai por dois trimestres consecutivos.

Há quem use o termo recessão para dizer que uma economia está a crescer abaixo do seu potencial (no caso português esse nível anda à volta dos dois por cento), referiu o mesmo economista.

A recessão costuma ser mais conjuntural, pelo que o professor da Universidade do Minho não concorda com a utilização desse conceito aplicado à situação actual da economia portuguesa.

É um facto que a economia portuguesa "tem crescido pouco e que a produtividade não tem crescido", notou Fernando Alexandre.

No entanto, o problema da economia portuguesa é estrutural e não conjuntural; existe um "problema grave na sua trajectória de crescimento", diagnostica Fernando Alexandre.

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