terça, 09 fevereiro 2010 | 23:16

País

por RTP

Carlos Cruz principal visado no começo das alegações finais

publicado 14:53 24 Novembro '08
Carlos Cruz foi o alvo desta manhã do procurador do Ministério Público. RTP

O procurador João Aibéo iniciou esta manhã as alegações finais do processo de pedofilia da Casa Pia depois de nenhum dos advogados ter requerido os dez dias a que teria direito para leitura dos documentos de que tiveram conhecimento na passada sexta-feira. O antigo apresentador Carlos Cruz foi o principal visado.

Ultrapassada a hipótese de mais um adiamento do início das alegações finais do processo de pedofilia do processo Casa Pia, coube ao procurador João Aibéo iniciar esta manhã as alegações finais do processo por parte do Ministério Público.

Na introdução às alegações finais, Aibéo referiu-se à "vastidão do processo" - afirmando ser "o sujeito processual que lida com mais factos" - para traçar a sua metodologia.

João Aibéo começou as alegações finais referindo-se a um episódio de 1982 em que um casal de jovens da instituição foi encontrado na casa do embaixador Jorge Ritto, em Cascais.

O procurador reconheceu que este episódio, ocorrido há mais de 25 anos, não integra factos que incriminem os arguidos mas considerou que os depoimentos prestados em Tribunal permitiram concluir que Carlos Cruz frequentava a casa de Jorge Ritto, local onde alegadamente ocorreram "orgias e bacanais".

Para João Aibéo, este episódio e ainda o facto de Carlos Cruz ter chegado a ser chamado à polícia em 1984 para prestar declarações sobre o caso terão levado o apresentador de televisão a ter "mais cuidado e mais cautelas" daí em diante.

Na sua declaração final, João Aibéo, refere que foi este episódio que provocou "um susto" enorme para o apresentador de televisão que, apesar de passar a ter mais cautelas, não deixou de manter o mesmo comportamento.

O procurador realçou ainda o facto de Carlos Cruz, três dias depois da detenção do principal arguido no processo, Carlos Silvino, ter dado entrevistas sobre o caso às estações televisivas já que naquele dia, 28 de Novembro de 2002, o apresentador esteve nos "principais telejornais das três principais televisões nacionais".

Segundo referiu o procurador, esta explicações de Carlos Cruz aconteceram devido à necessidade que este "sentiu de ir às televisões explicar-se" e "conseguiu emocionar-se das três vezes".

Ida à televisão foi suicídio

Aibéo utilizou este episódio para sustentar a alegada influência de Carlos Cruz junto dos órgãos de comunicação social: "Quem mais teria poder para isso".

João Aibéo referiu já na fase final da sessão que a ida de Carlos Cruz aos telejornais das três televisões nacionais a 28 de Novembro de 2002, três dias após a detenção do principal arguido, Carlos Silvino, foi o seu suicídio.

"Ofereceu-se à vista dos que o queriam comprometer (...) Se não tivesse ido à televisão, provavelmente não estaria envolvido neste processo", lançou o procurador que explicou ainda que terá sido a exposição do arguido nessas entrevistas que fez os jovens avançar e imputar-lhe os crimes de que é acusado.

O procurador fez ainda referência a testemunhos de jovens envolvidos no episódio de 1982, que deram a entender que havia outras figuras que de si abusaram, tendo João Aibéo declarado que "dou de barato que há outras pessoas envolvidas nos abusos que nem foram faladas, acredito piamente nisso".

Já há saída do Tribunal para almoço após a sessão da manhã, o advogado de Carlos Cruz, Ricardo Sá Fernandes, escusou-se a comentar as alegações, limitando-se a dizer que "o procurador João Aibéo teve uma prestação de grande qualidade e é um grande magistrado".

"Foram alegações úteis e de grande elevação", elogiou Ricardo Sá Fernandes, que também fora elogiado no início das alegações pelo próprio procurador, que se referiu por diversas vezes à maneira como a defesa de Carlos Cruz conduziu os seus interrogatórios e se relacionou com o MP.

Já um dos advogados de Carlos Silvino, Ramiro Miguel, realçou o esquema de alegações finais traçado por João Aibéo dizendo que "parece fazer todo o sentido dentro do raciocínio que tem seguido nesta fase".

Carlos Cruz tranquilo

O apresentador de televisão, Carlos Cruz, o principal visado esta manhã pelo procurador João Aibéo, manifestou-se "completamente" tranquilo à saída do Tribunal quando abandonou o local para almoço.

"Quando se tem a consciência tranquila, fica-se muito sereno", respondeu Carlos Cruz.

No recomeço da sessão após o almoço, João Aibéo passará a abordar outros temas, como os depoimentos dos educadores, peritos e polícia durante a investigação.

O procurador do Ministério Público começou a falar de um episódio de 1982, indo debruçar-se a seguir sobre o conjunto dos depoimentos dos educadores da Casa Pia e depois do papel da polícia durante a investigação.

O procurador referir-se-á depois ao resumo da prova testemunhal e para amanhã deverá deixar os itens constantes no despacho de pronúncia, concluindo com a situação da casa de Elvas onde alegadamente terão ocorrido abusos sexuais, e que envolve todos os arguidos.

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