Dos quatro membros da comissão promotora - que inclui cerca de 400 nomes - ouvidos pela agência Lusa, o professor de Relações Internacionais José Manuel Pureza está entre os que alimentam maiores expectativas acerca do evento que reúne 500 congressistas nacionais e estrangeiros durante três dias na Fundação Calouste Gulbenkian.
"O que me anima é a perspectiva de uma iniciativa que rompa com um limite existente na sociedade portuguesa" no que toca aos direitos das mulheres, sustenta o professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Em seu entender, só por se realizar a iniciativa da União Alternativa e Resposta (UMAR) constitui um "sobressalto" e poderá mesmo ser uma espécie de tiro de partida para uma movimentação colectiva que traga novos avanços da sociedade.
"Os direitos conquistam-se, nunca se dão. São sempre fruto da mobilização colectiva", realça, citando como exemplo que "ninguém deu direitos [às mulheres] numa bandeja de prata nos outros países" onde o fosso em relação aos homens já é menor do que em Portugal.
Se outras vantagens não tivesse, o congresso já se justificaria por "trazer para primeiro plano o debate sobre o papel das mulheres no Século XXI em Portugal", constituindo por isso mesmo um "manifesto", uma "proclamação" e uma "chamada de atenção", acrescenta.
O que vier a ocorrer depois "será sempre com base na capacidade de mobilização" das pessoas, afirma o investigador universitário.
Para o antropólogo Miguel Vale de Almeida, o encontro constitui uma oportunidade para mostrar "como se pode caminhar para formas de vida com menos desigualdades entre homens e mulheres".
Ao mesmo tempo servirá para "redefinir o campo e o pensamento feminista", demonstrando ainda que "a ideia de feminismo não está ultrapassada", acrescenta.
Em seu entender, os direitos formais foram conquistados ao longo dos últimos 100 anos. O voto, anteriormente, e a interrupção voluntária da gravidez, mais recentemente, são exemplos que Vale de Almeida aponta e que, tal como José Manuel Pureza, atribui aos movimentos sociais.
Os passos que continuam por dar, na óptica do antropólogo, são as mudanças das "formas de relação e de vida" conseguidas através da alteração das mentalidades.
Outro resultado que este professor universitário aguarda do Congresso, o segundo sobre a temática do feminismo em 80 anos, é que venha "legitimar e dar estatuto" a "quem trabalha na prática contra a discriminação de género".
O constitucionalista Pedro Bacelar de Vasconcelos atribui ao fórum um pendor mais reflexivo do que prático, esperando que nas conclusões que possam ser retiradas se encontre o contributo da "metade da humanidade (...) ignorada e secularmente reprimida" para a "compreensão do [actual] mundo globalizado".
"Novos olhares e novas sensibilidades" sobre o feminismo são também aguardados por docente universitário, que acentua o facto da ideia do congresso ter nascido do movimento que defendeu a despenalização da interrupção voluntária da gravidez no referendo.
O activista e defensor dos direitos dos homossexuais Sérgio Vitorino faz questão de distinguir o conceito de feminismo existente no Século XX e na actualidade.
Se "no essencial, não se alterou a relação de poder entre homem e mulher", nos tempos correntes há que encontrar "novas formas de pensar o feminismo", incluindo a própria designação, defende.
Por um lado, prossegue Sérgio Vitorino, as mulheres continuam impedidas de fazer escolhas, desde logo pela dependência financeira dos homens, que "continuam ser os patrões no trabalho, no associativismo".
Mas do outro, têm surgido causas e correntes de opinião que acabam por ser aliadas do feminismo e o colocam num patamar diferente do que sucedia nas décadas de 70 ou 80.
O movimento em defesa da educação sexual nas escolas ou as organizações de homossexuais são exemplos apontados por Sérgio Vitorino como integrantes do "pensamento novo" que caracteriza os ideais feministas da actualidade.