sábado, 21 novembro 2009 | 06:29

País

por José António Fonseca, RTP

Ponce de Leão deixa alerta na hora do adeus à RTP

publicado 15:40 12 Dezembro '07
Ponce de Leão sem condições para continuar na RTP RTP

A RTP poderá ter que despedir 200 trabalhadores caso não sejam feitos cortes orçamentais, a começar pelo desporto, em particular o futebol. Este é o aviso mais sério deixado por Ponce de Leão em vésperas de abandonar a empresa da qual é actual presidente.

A chegada de um novo operador de televisão, que considera inevitável, é a razão para este alerta. A RTP irá perder cerca de 25 milhões de euros com a chegada de um novo operador de televisão. Uma situação que leva Ponce de Leão a ser peremptório: “É necessário poupar”. E dá dois exemplos: no futebol e na informação. Contas feitas, 5 a 6 milhões no futebol e 2 a 3 na informação. O administrador ainda em funções diz que a RTP não pode continuar a gastar como até aqui, a acompanhar estágios das equipas de futebol e mesmo na transmissão de jogos.

“Se nada se fizer até ao momento em que a crise se instalar serão despedidos pura e simplesmente 200 trabalhadores”, avisa.

Ponce de Leão aceitou o desafio de falar do passado, do presente, mas também do futuro. E é este último que mais o preocupa. Para este advogado de 61 anos os tempos que se aproximam não vão ser fáceis, daí que o prolongar da comissão de serviço não poderia ser feito a qualquer preço.

A conversa decorreu em ambiente de mudança. É o arrumar dos últimos papéis que fizeram a vida deste advogado/gestor ligado à RTP nos últimos cinco anos.

A importância de uma equipa

Recuemos algumas semanas, as suficientes que nos levem até ao dia em que foi tornado público o nome de Guilherme Costa como novo presidente da RTP. “Nesse mesmo dia fui chamado ao ministro da tutela que me endereçou o convite para continuar na RTP para um novo mandato no lugar de vice-presidente. Recebi a proposta, que aceitei ponderar, e pouco depois fui confrontado com um pedido chegado da tutela em que me solicitavam autorização para que ao anúncio do nome do novo presidente pudesse juntar-se o meu como vice-presidente. Essa foi uma pretensão que recusei já que entendi que haveria certos pormenores a acertar antes de uma decisão final.”

Pormenores que teve oportunidade de apresentar ao novo presidente da mesma forma que faz questão de os explicar agora.

“Tenho plena consciência do que o futuro nos aguarda com a chegada de um novo operador televisivo e os problemas que dai advêm para a televisão estatal. E foi por considerar que esse desafio é tão importante que só equacionei aceitar o convite para continuar como vice-presidente mantendo a meu lado os outros dois administradores que ainda me acompanham, Luís Marques e Costa e Silva. Sei que alguns ainda sussurraram que se tratava de birra minha por não me ter sido entregue a presidência.

Nada mais errado. Foram duas as razões que me levaram a colocar como condição para continuar ter Luís Marques e Costa e Silva a meu lado. A primeira tem a ver com o factor segurança. Como já referi os desafios que se aproximam vão exigir muito de quem dirigir esta casa. Com esta equipa eu tinha a certeza de conseguir ultrapassar qualquer obstáculo. É uma equipa que me dá garantias. E eram essas garantias que não teria com os novos elementos. Se podia estar certo do êxito porquê arriscar.

A segunda razão tinha mais a ver com uma questão de lealdade. De toda a equipa que se manteve nos últimos anos na RTP o Dr. Almerindo e o Dr. Gonçalo Reis saíram para a Estradas de Portugal, eu ficaria na RTP e dois elementos que eu entendo serem os que mais trabalharam para esta casa eram postos de lado. Eu e o Dr. Almerindo demos muitas vezes a cara, mas na verdade a maior fatia de trabalho foi do Luís Marques e do Costa e Silva.

Não me esqueço que pouco tempo depois de chegar à RTP, num jantar de aniversário da casa do pessoal, tive oportunidade de anunciar o lançamento para breve da primeira pedra na nova sede. E logo ali me foi respondido que quanto ao lançamento de primeiras pedras já iam na segunda, quanto à última é que nada. Afinal conseguimos. Temos uma nova sede, com as excelentes condições que todos reconhecem e tudo isso se deve ao muito trabalho do Costa e Silva.

Quanto ao Luís Marques sabemos o quanto é difícil lidar com a sua área. Ele não só o conseguiu como obteve resultados simplesmente extraordinários. Eram estes os homens que me davam garantias de êxito no futuro. Eram estes os homens com quem continuaria.”

Novo operador é enorme desafio

A par da conversa corria em antena a emissão de encerramento dos 50 anos da RTP. Nada podia vir mais a propósito ao colocar-se o passado lado a lado com o futuro. E que futuro é esse que pode preocupar tanto um gestor para chegar ao ponto de não aceitar uma vice-presidência na empresa que tão bem conhece. Afinal tudo se resume ao inevitável aparecimento de um novo operador de televisão em sinal aberto.

Ponce de Leão fala com ar preocupado. “A entrada de um novo operador em sinal aberto é um enorme desafio que se vai colocar aos operadores já existentes. E explico porquê. Actualmente é permitida a transmissão de 30 minutos de publicidade por hora de emissão que estão repartidos em seis minutos para a RTP e 12 para a SIC e TVI. Ora a entrada de um novo canal comercial irá aumentar a oferta para 42 minutos. Assim sendo é certo que o preço da publicidade irá baixar ainda mais e não será só na televisão já que todos os sectores irão ser afectados.

Na RTP há o problema das compensações indemnizatórias serem recebidas em função da publicidade. Com menos publicidade menos se recebe. Em 2010/11, altura em que o novo operador estará a funcionar em velocidade de cruzeiro, a RTP perderá, pelos meus cálculos, cerca de 25 milhões de euros. Perguntar-me-á se, neste momento, a RTP em termos financeiros não tem condições para respirar um pouco mais desafogadamente e ultrapassar esse problema. Claro que sim e até nos permitimos a que neste ano de 2007 se tivesse permitido alguma permissividade nos gastos.

Também não é todos os dias que se fazem 50 anos e não queríamos parecer o indivíduo avarento que até no seu dia de aniversário se questiona sobre as despesas a fazer. Mas o que não pode ser ignorado é o que aí vem. Não o podemos fazer. E que ninguém diga que estou contra a chegada desse novo operador. Antes pelo contrário. A RTP tem é que estar preparada para o que aí vem. Perante este cenário e para ficar nos próximos quatro anos tinha de ter a certeza que tinha capacidade de intervenção para traçar um plano ganhador e com Luís Marques e Costa e Silva tinha a certeza de que tal iria acontecer.”

RTP perde 25 milhões de euros

Surge o momento para avançar para a contabilidade porque é bom não esquecer que nas contas de Ponce de Leão a RTP irá perder 25 milhões de euros de receitas que têm de ser recuperados.



“As receitas nesta casa podem crescer. Com as plataformas Multimédia entendo que é possível aumentar os ganhos entre 4 a 6 milhões de euros. Depois temos de ter uma gestão de grelha ainda mais adequada. Teremos de ter cortes significativos no futebol. Não podemos continuar a gastar o que se gasta no acompanhamento dos estágios das equipas de futebol e mesmo as transmissões de jogos vão levar obrigatoriamente um enorme corte. Tudo isso irá permitir uma poupança de 5 a 6 milhões.

Depois temos a informação. É necessário ter uma nova forma de fazer informação. Um maior aproveitamento dos meios disponíveis. Técnicos e humanos. Algo que nos permitirá poupar entre 2 a 3 milhões. Feitas as contas ainda temos cerca de 10 milhões de euros em falta. E numa comparação muito realista esta verba corresponde a 200 postos de trabalho. Temos duas formas para ultrapassar esta questão. A primeira é a forma dolorosa. Se nada se fizer até ao momento em que a crise se instalar serão despedidos pura e simplesmente esses 200 trabalhadores.

Mas há uma segunda hipótese, aquela que terá obrigatoriamente de ser considerada. Efectuar um planeamento que comece desde já e aproveitando o ciclo de vida das pessoas. São as reformas antecipadas, são as mortes naturais que infelizmente sempre acontecem, ou seja, uma forma quase não sentida pela maioria dos trabalhadores.”

Com as contas na mesa, o actual presidente da RTP puxa da memória e apresenta mais razões para as suas preocupações. “Até podem dizer que estou a falar desta forma porque estou de saída. Mas não é. Tenho a nítida sensação de que há uma convicção generalizada de que os problemas da RTP estão todos resolvidos. Uns estão, é verdade, mas outros estão a nascer. Hoje já não pensamos na sobrevivência, mas temos de pensar que até 2011 vamos ter que fazer mais com bastante menos. E tudo pode ser feito se preparado atempadamente porque há razões de sobra que o justificam.”

Gastos de 98 milhões

“A RTP é neste momento um dos operadores de serviço público mais eficazes”, afirma Ponce de Leão. “Muito mais que os operadores privados e não é difícil demonstrá-lo. Basta olhar para os números dos primeiros seis meses deste ano. A SIC e TVI têm dois canais abertos, três de cabo e um internacional. O chamado ‘Cash-Cost’, ou seja, o dinheiro realmente gasto desses dois operadores foi de 132 milhões de euros.

A RTP tem dois canais abertos, três por cabo, sendo que um deles, a RTP África, tem custos adicionais de distribuição, tem mais um internacional, dois canais regionais e tem a rádio. Junte ainda um quadro fiscal desfavorável já que os operadores privados podem recuperar parte do IVA, o que não acontece com a RTP. Ora o Cash-Cost comparável da RTP foi de 98 milhões de euros.

Pode dizer-me que a RTP tem dois canais em que utiliza os mesmos meios na informação, o que não acontece com a SIC e a TVI. É verdade. Então vamos colocar mais 25 milhões para essa situação. Mesmo assim continuamos a falar de despesas com uma diferença de 98 para 107 milhões. Ou seja, conseguimos ser mais eficazes que a SIC e a TVI juntas e com um tipo de grelha em que a nossa audiência vale muito mais do que a desses operadores. E esta empresa ainda pode ser mais eficaz e fazer muito mais. Só temos que alcançar um melhor aproveitamento do acordo colectivo de trabalho e continuar os cursos de gestão dos nossos quadros que já estamos a realizar. Ter sistemas de informação mais poderosos e com o novo ERP (sistema de informação integrado) seremos ainda mais eficientes. A RTP tem de conseguir ultrapassar este choque de eficiência”, diz o administrador da RTP

Trabalhadores com ganhos de 31,6 por cento

E enquanto os números estão em cima da mesa é de aproveitar para falar também das contas que fazem quando se trata de ganhos para os trabalhadores da Rádio e Televisão de Portugal. “Conseguimos entre 2002 e 2007 que os trabalhadores desta empresa tivessem ganhos de 31,6 por cento, isto falando apenas das remunerações fixas. Ou seja, aquelas que os trabalhadores sabem que recebem sempre ao fim do mês. A nossa política foi acabar com mecanismos de remunerações individualizadas que estão sempre ligadas à compra de lealdades e consciências de cada um. As pessoas não podem estar à espera que venha um chefe amigo que lhes dê mais horas extraordinárias ou outras formas de ganho para que no fim do mês isso se reflicta no ordenado. Foi com isso que também conseguimos acabar.”

Os últimos papéis têm de ser arrumados e as últimas conversas têm de ser mantidas. A transmissão de poderes acontece tão naturalmente como as conversas de Ponce de Leão com o futuro presidente. “Tem de haver plena consciência daquilo que aí vem. Nas conversas que tenho mantido com o Dr. Guilherme Costa procuro transmitir todo este tipo de informação que acho não estar de posse do meu interlocutor. Da forma como me tem ouvido estou convencido que estará sensibilizado em olhar para o que espera a RTP no futuro próximo. Esta casa está sob rodas, mas pode descarrilar porque vem aí uma curva muito apertada. Um dos trunfos desta administração foi ir ao fundo das questões. Nunca deixámos nada pela rama de forma a podermos dominar melhor todos os problemas. E para isso é preciso alguma firmeza.”

No próximo dia 2 de Janeiro Ponce de Leão estará nas instalações da RTP para receber a nova equipa, transmitir as últimas recomendações e para um adeus final. No dia seguinte a integração numa firma de advocacia faz com que a vida deste advogado retome o seu curso normal. Mas o fim de um ciclo de cinco anos nem sempre acontece com aquela naturalidade que se deseja.

“Agora já não digo o mesmo que diria há uns dias. As pessoas criam as suas barreiras psicológicas próprias de quem se convence que vai mesmo sair. Vou sair, mas irei naturalmente acompanhar com maior atenção as notícias da RTP e tudo o que passa nesta casa, o que na verdade não acontecia antes de 2002.”

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