Nove anos depois de conhecer o veredicto médico, Maria é hoje "mais fel iz" e atribui aos medicamentos e ao acompanhamento no Hospital Garcia de Orta, e m Almada, a qualidade de vida possível para quem sofre desta doença reumática al tamente debilitante.
Maria estranhou as "dores no corpo todo", os músculos rígidos e as arti culações doridas, manifestações predominantes nesta doença que atinge de forma c rónica as estruturas articulares.
Quando mal podia andar, Maria consultou o médico e, desde então, a sua vida reparte-se em crises e melhoras, mas actualmente tem dias em que mal sente os efeitos da doença.
"Melhorei muito", contou à Agência Lusa, no intervalo de uma consulta n o Hospital Garcia de Orta, onde são realizadas anualmente mais de 1.500 sessões no Hospital de Dia de Reumatologia.
Nesta unidade de saúde, Maria acompanha a evolução da doença, actualiza a terapêutica e realiza exames. Em casa, administra na barriga injecções subcut âneas com um medicamento biológico que faz parte das mais avançadas terapias par a as doenças reumáticas.
Em Portugal, cujo Dia Nacional do Doente com Artrite Reumatóide é assin alado quarta-feira, mais de meio milhar de pessoas com doenças reumáticas têm ac esso a estas terapias, nomeadamente os TNF, inibidores da substância (citocina) responsável pela inflamação.
Os TNF inibem os sintomas e os sinais da doença e são actualmente presc ritos para a artrite reumatóide, a artrite psoriática, a espondilite anquilosant e e doença de Crohn, esta última do foro da gastrenterologia.
Em Portugal estão à venda quatro medicamentos biológicos contra as doen ças reumáticas, três dos quais administrados por injecção subcutânea - como a qu e Maria aplica na barriga - enquanto o outro é uma infusão endovenosa.
Contudo, Portugal é o país da Europa onde menos pessoas com doenças reu máticas utilizam medicamentos biológicos, segundo dados da indústria farmacêutic a.
Os mesmos dados apontam para cerca de cem portugueses por milhão de hab itantes a receberem estes fármacos, contra 219 por milhão de habitantes em Espan ha e 674 por milhão de habitantes na Noruega.
Apesar de satisfeita com os resultados da terapêutica, Maria sabe que e sta é uma doença para a vida toda e que as dores chegam apenas porque o tempo mu da e anda humidade no ar.
Os doentes com artrite reumatóide são igualmente especiais porque os me dicamentos biológicos actuam a nível da imuno-supressão (resistência à infecção) , tornando-os mais sensíveis aos agentes infecciosos e obrigando a um acompanham ento médico rigoroso.
Os doentes a quem são administrados medicamentos rigorosos por infusão endovenosa têm de se deslocar, de dois em dois meses, ao Hospital de Dia para re ceberem o fármaco.
São cerca de três horas em que os doentes estão sentados e praticamente imóveis a receber o medicamento na veia. A televisão especialmente colocada na sala de tratamentos ajuda a passar o tempo e não são raras as vezes em que as ho ras correm durante o sono.
A este Hospital de Dia (no Hospital Garcia de Orta) chegam doentes da z ona, mas também de outras onde não existem estruturas com capacidade para admini strar este tipo de fármacos, nomeadamente do Alentejo e do Algarve.
A este hospital chegam doentes com artrite reumatóide ainda numa fase i nicial, "mais fácil de tratar", mas também outros que já apresentam uma evolução muito grande, como explicou à Lusa o director do Serviço de Reumatologia do Hos pital Garcia de Orta.
Segundo Canas da Silva, que é também o presidente do Colégio de Especia lidade de Reumatologia da Ordem dos Médicos, uma das razões para os doentes sere m observados numa fase tardia da doença é a falta de médicos de família.
"Este atraso adia decisões de diagnóstico e de tratamento que conduzem a um prognóstico pior", explica.
Canas da Silva acredita que a cura para a artrite reumatóide poderá che ga r, mas nunca antes de dez ou doze anos. Até lá, o objectivo dos profissionais da área apostam num maior conhecimento da causa da doença e das melhores formas de a abordar e tratar.
As doenças reumáticas são as mais frequentes da raça humana. Em Portuga l, cerca de 2,7 milhões de pessoas sofrem de algum tipo de queixas reumáticas, o que equivale a 25,7 por cento da população.