"Eis-me no momento mais difícil do doutoramento", declarou no primeiro discurso que fez enquanto novo doutor da Universidade do Algarve, arrancando uma sonora gargalhada do Grande Auditório repleto de académicos, autoridades locais e do secretário de Estado da Cultura.
"A alma é a rainha dos vícios. O meu cinema não será o vício da minha alma?", questionou O realizador, recordando a frase original - "A alma é um vício" - da escritora Agustina Bessa-Luís, que pôs numa das falas de Francisca, personagem que passou da literatura para a tela do cinema pela mão de Oliveira.
"Extremamente grato" e "honrado" pelos elogios à sua obra cinematográfica e pelo grau académico dado pela Universidade do Algarve, Manoel de Oliveira disse sentir-se "um pequeno português num enorme país que é Portugal".
"O Portugal que é hoje o país mais internacional de todos os países do mundo sem deixar de ser português", disse, regozijando-se pelo facto de não haver nada melhor para "qualquer artista do que a compreensão do seu trabalho".
Sempre brincalhão, o cineasta de 99 anos gracejou com o facto de os críticos por vezes lhe pedirem para explicar a sua obra, e afirmou que como realizador pode perder dias ou mesmo anos para ser "explícito e claro naquilo que pretende dizer, mas sem ser directo".
"É ridículo quando um crítico pergunta o que quer dizer com isto", mencionou, arrancando nova gargalhada da plateia.
O autor de "Francisca" (1981), "Vale Abraão (1993), a "Caixa" (1994) e de muitas outras dezenas de trabalhos com a marca `oliveiriana` de longos planos fixos foi homenageado hoje pelo reitor da Universidade.
"Manoel de Oliveira irá enriquecer", "rejuvenescer" e "dignificar esta universidade", e o exemplo da vida de Manoel de Oliveira "preenche as actividades da Universidade", referiu João Guerreiro, recordando que o autor de Aniki-Bobó (1942) quase que nos habituou a "um filme diferente em cada novo ano".
O acto académico decorreu no Grande Auditório da Universidade do Algarve (UAlg) em Gambelas, com a oração de sapiência do professor universitário Mário Jorge Torres, também o padrinho do novo doutor Manoel de Oliveira, que afirmou que a tragédia de Manoel de Oliveira "era ser maior que o seu país".