terça, 09 fevereiro 2010 | 21:18

Mundo

por Carlos Santos Neves, RTP

Célula paquistanesa da al Qaeda nega autoria do atentado contra Bhutto

publicado 21:49 29 Dezembro '07
Paquistão mergulha na incerteza Andy Rain, EPA

O presumível chefe da al Qaeda no Paquistão rejeita qualquer envolvimento na preparação do atentado que provocou a morte de Benazir Bhutto, acusando o Governo de Islamabad de estar a ensaiar uma farsa. Dois dias depois do atentado suicida de Rawalpindi, as estruturas de poder do regime e a Oposição alimentam uma discussão em torno das circunstâncias da morte da antiga primeira-ministra.

Em entrevista à agência France Presse, via telefone, um porta-voz de Baitullah Mehsud, presumível líder da rede terrorista em território paquistanês, devolveu as acusações às autoridades de Islamabad.

“Ele não está implicado neste atentado”, afirmou o maulana Omar, para quem a morte da líder da Oposição a Pervez Musharraf resultou de uma “conspiração do Governo, do exército e dos serviços secretos”.

Na sexta-feira, um porta-voz do Ministério do Interior do Paquistão garantia que o Governo estava na posse de “provas irrefutáveis” do envolvimento da al Qaeda num plano de desestabilização do país. Para consubstanciar a acusação, Islamabad divulgou a transcrição do que disse ser uma chamada telefónica de Baitullah Mehsud para um dos organizadores do atentado suicida. Na comunicação, interceptada pelos serviços secretos paquistaneses, o líder fundamentalista teria felicitado os autores do ataque.

O porta-voz de Mehsud não hesita em classificar de “teatro” as alegações do Governo. Até porque “atacar uma mulher vai contra as tradições tribais”.

Segundo a France Presse, o maulana Omar terá concedido a entrevista a partir da província do Waziristão, no noroeste do país, sobre a linha de fronteira com o Afeganistão. É nas regiões tribais do Waziristão que as unidades operacionais da al Qaeda e a guerrilha taliban reagruparam forças e reconstituíram a sua capacidade de acção, de acordo com os estrategas militares e os serviços secretos norte-americanos.

Causas da morte de Bhutto no centro da controvérsia

Na versão do Governo, aventada com base em informações recolhidas junto dos médicos que efectuaram a autópsia aos restos mortais de Benazir Bhutto, a antiga primeira-ministra não morreu em consequência de disparos efectuados pelo bombista suicida.

Javed Cheema, porta-voz do Ministério do Interior, afirmou que Bhutto não foi atingida por qualquer disparo, ou pelos estilhaços da carga explosiva detonada pelo autor do atentado. A líder do Partido do Povo Paquistanês ter-se-ia desequilibrado no momento dos disparos ou em consequência do impacto da explosão, quando aproveitava a abertura no tejadilho da sua viatura blindada para saudar apoiantes à saída do comício de Rawalpindi - ao baixar-se para evitar as balas, Benazir Bhuto teria batido com a cabeça, sofrendo uma fractura fatal.

A porta-voz de Bhutto, Sherry Rehman, acusa o Governo de difundir uma versão “ridícula” dos acontecimentos para “ocultar a verdade”. “Eu vi que ela tinha uma ferida de bala na parte de trás da cabeça e uma outra, causada pela saída da bala, do outro lado”, declarou a porta-voz, citada pela France Presse.

O porta-voz do Ministério do Interior veio entretanto assegurar que as autoridades estão dispostas a autorizar a exumação dos restos mortais de Benazir Bhutto para determinar as causas exactas da sua morte.

Novas imagens do atentado contra Benazir Bhutto, captadas por um fotógrafo amador, revelam um homem com uma pistola na mão, empunhada em direcção à candidata. E sugerem que o atentado possa ter sido levado a efeito por dois atacantes e não apenas um.

Vaga de violência ameaça eleições

A comissão eleitoral paquistanesa deixou antever, este sábado, a possibilidade de um adiamento das eleições legislativas e provinciais, marcadas para 8 de Janeiro.

“Todas as actividades no quadro do processo eleitoral antes do escrutínio, incluindo a impressão dos boletins de voto, a logística e a formação do pessoal encarregado de conduzir as operações, foram desfavoravelmente afectadas”, sublinha em comunicado a comissão eleitoral.

O órgão vai reunir-se de emergência na próxima segunda-feira.

A formação política da antiga primeira-ministra prometeu para domingo uma decisão sobre a sua participação no escrutínio.

A vaga de violência espoletada pelo assassínio de Benazir Bhutto já provocou mais de 30 mortos. Segundo a Associated Press do Paquistão, o Presidente Pervez Musharraf deu instruções às forças de segurança para que actuem com “firmeza” contra motins e pilhagens.

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