Sexta, 21 de Novembro de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2012-06-16 19:17:06

No 16º aniversário da morte de David Mourão-Ferreira: raízes açorianas e alentejanas** Teresa Martins Marques

Ao meu amigo Eduíno de Jesus,
(um dos primeiros críticos de
David Mourão-Ferreira)


No 16º aniversário da morte de David Mourão-Ferreira: raízes açorianas e alentejanas


A preocupação de DMF com a investigação da suas raízes é revelada logo aos dezasseis anos numa aturada pesquisa que leva a cabo junto dos pais, tios e outros familiares no sentido de averiguar as suas origens materna e paterna. Dessa pesquisa ficaram-nos os «Apontamentos para uma árvore genealógica» (1943), conjunto de sete páginas, justamente tratadas em árvore, tendo conseguido apurar do lado materno cinco gerações e colaterais e, do lado paterno, três gerações e colaterais. As raízes de DMF são, pelo lado materno, de lavradores e pequenos agricultores. Estas raízes familiares serão transformadas em matéria poética da «Xácara dos Campos de Elvas»: são cinco as gerações ali referenciadas, a primeira a do trisavô dos Açores que teria acompanhado o Rei libertador D. Pedro IV, e que numa aliança terramar viria a deitar raízes no Alentejo; “Mas aqui veio ancorar, aqui raízes deitou / esse soldado do mar”. A alusão é, por vezes, implícita, como no caso de Santa Eulália, topónimo alentejano, mas alusão também ao nome da mãe dos filhos, “santa em sua vida”: “Perto fica Santa Eulália, / que é santa na minha vida! / Do outro lado é a estrada / que vai dar à Andaluzia / e que trouxe de Granada / a bisavó granadina…/ – Há cinquent’anos, compacta, / hoje dispersa a família..!”
Esta santidade que lhe é atribuída vai servir de contraponto, num tom que nada tem de penitencial, ao estatuto de pecador do sujeito, que assim se regozija de pertencer a uma linhagem, também ele alferes de Caçadores, na senda do avô: “sobretudo de mulheres foste grande caçador!” Refere-se, uma vez mais, a este seu avô em carta dirigida a uma amiga, datada de 15 de Abril de 1949, após visita ao cemitério de Elvas:
«[…] confesso o meu especial fraquinho por meu bisavô que se chamava David Ferreira, e por seu filho, o meu avô José Mariano, que morreu há perto de cinquenta anos, tuberculoso e com 36 anos (uma riquíssima idade para se morrer!): era grande amador de Amor e grande amador de teatro. E, ou porque representasse muito bem ou porque amasse menos mal, o certo é que ele simples alferes de Caçadores 4, razoavelmente pelintra, segundo creio, veio a casar com minha avó Adelaide Sofia, bonita e rica. Tudo me leva a crer que ele prestou o devido culto a ambos os dotes da minha avó. A verdade é que, enquanto casados, se foram vendendo umas casas, e, depois da morte dele, olivais e terras de semeadura lá foram por água abaixo. Hoje, ao passar por olivais que pertenceram a minha avó, penso: “Isto podia ser meu…culpa de quem? De meu avô que não teve juízo…” Mas sinto-me feliz: prefiro não ter aquelas árvores, aqueles campos, mas ter tido um avô que não teve juízo. Um avô assim é uma grande coisa: que mais não seja, será sempre uma desculpa, uma atenuante para os possíveis desvarios do neto…»
A procura da justificação de um destino inscrito na continuidade geracional, e até mesmo a imagem dos “olivais que foram da avó”, que encontrámos no poema, está já, sete anos antes, formulada nesta carta a esta amiga. Assim como está lá também a figura do alferes de Caçadores, sobretudo de mulheres. Assim transitam os temas e as imagens no discurso davidiano, independentemente dos géneros que o configuram, tecendo uma memória interna, um sistema de vasos comunicantes. A referenciação da origem da “avó granadina” da «Xácara» sofrerá oscilações várias. Virá a sofrer rectificação num texto de 1970, intitulado «Caleidoscópio Espanhol». que a apresenta como sendo, afinal, originária de Córdova :
«E Córdova, por fim. Córdova, de onde, afinal de contas, era natural a minha bisavó que durante anos e anos supus que fosse granadina. Córdova, «romana y mora» onde, vendo bem, tenho ainda outros parentes, mais distantes no tempo, mais próximos contudo pelas linhas do coração e da cabeça. Sei mais a respeito de Góngora que da vida obscura da minha bisavó; e Córdova como pátria de Gôngora, de Lucano e dois Sénecas, não tem menos a ver comigo, com a minha verdadeira «ascendência», que essa modesta oitava parte das minhas raízes meramente biológicas. E com o resto da Espanha passa-se exactamente o mesmo: os seus poetas, os seus prosadores, os seus pensadores pertencem igualmente à minha «família».»
Todavia, no «Romance de Granada», publicado dez anos depois (1980), volta a ambiguidade a instalar-se, no final do poema: “Quem sabe se noutros tempos / me foram berço ou sepulcro / Quem sabe se hoje o dizendo / revelo um ontem oculto / Granada já mal te lembro / Só assim te redescubro”. Ambiguidade que resulta da dupla interpretação como alusão à família biológica, ou como alusão à família do espírito, que o final de «Caleidoscópio Espanhol» enaltece. Esta família espiritual leva-o à solidariedade no luto diferido no tempo, criando laços culturais, laços intelectuais que, afinal, se sobrepõem aos laços de sangue, tecendo outras genealogias do espírito. É a solidariedade com Lorca que ressalta do «Romance de Granada». É o poeta que se sobrepõe ao espaço, que agora nobilita a cidade, que o fez perecer:
«Ó carpideiras do vento / com Sol também à mistura / por Federico tecendo / a vossa teia soturna / dançai antes o flamenco / a ver se muda a fortuna / Mas basta a sombra de um lenço / fala-se logo em conjura / Mas basta a graça de uns dentes / que mordem a terra nua / logo se vêem crescendo / ciladas e sepulturas »
Não se deduza, todavia, por interpretação literal, a partir daquele excerto de «Caleidoscópio Espanhol», que os laços de sangue são, para DMF, menos importantes do que os laços do espírito. Desde a mais tenra infância eles lhe foram cultivados no seio familiar, muito particularmente sob a forma de um cultualização da memória dos mortos. Quando, em 1963, vier a escrever e a publicar o poema «A Outra Noite de Natal» , de clara inspiração brandoniana, em homenagem aos que partiram, tal poema inscrever-se-á naturalmente num ritual que lhe é familiar, subvertendo, porém, o ponto de vista tradicional em que os vivos choram os mortos, já que são estes que choram os vivos, lendo-se em filigrana outro tema muito do agrado de DMF: o do fingimento da felicidade, que o Natal potencia. Estes mortos sabem que os vivos voltarão e que a passagem entre vida e morte não passa de curto interregno entre dois modos de existência:

«Juntam-se os mortos hoje à noite, / juntam-se à roda de uma árvore, / ainda verde ou já em fogo, / para chorar a nossa falta. // Ainda verde? Ou já em fogo? / Fraternidade: ó flor, ó cinza! /Juntam-se os mortos hoje à noite / para fingir que são felizes. // Sopram a neve. Acendem velas. / Rompem de súbito a cantar: / Dizem que estão à nossa espera. / Sabem que havemos de voltar.»
O Alentejo como terrunho de onde brotam as suas raízes familiares ver-se-á reforçado no imaginário poético davidiano pela permanência do autor, entre 2 de Março e 9 de Agosto de 1952, cumprindo serviço militar em Portalegre, no mesmo Batalhão de Caçadores 1 já aludido na «Xácara» relativamente a seu avô, «Nocturno de um Comboio no Alentejo» , escrito em Dezembro do mesmo ano, terminada que era já aquela experiência, constituindo-se o poema em eco duplamente vivencial. É a extrema violência do comboio “turbulento” que ressalta no poema, máquina que “vai espedaçando a terra nua”, com uma força desmedida, incontida: “nada o detém: nem mesmo o vento, / Nada o confrange: / como um alfange / corta, impiedoso à luz da Lua.” Atentemos na expressão “nem mesmo o vento”. Numa primeira leitura, este vento é lido, paradoxalmente, como mais forte que a máquina. O vento é frágil face à força bruta desta máquina, que nem mesmo um tufão deteria. Mas o que parece paradoxal, na realidade, não o é, lido em contexto mais vasto, já que o vento tem, no conjunto da obra davidiana, um fundo significado como força de bloqueio, adquirindo uma significação que não pode ser deduzida nem explicada apenas a partir deste poema.
A poesia davidiana não possui um claro fundo político expresso, mas possui-o, muitas vezes, implícito. Neste poema, é a terra alentejana que sofre, numa alusão que não pode deixar de ser lida também em fundo político de violência de lutas sociais, que virão a tomar forma de extrema crueldade aquando do assassinato de Catarina Eufémia, que virá a ocorrer um ano e meio mais tarde, a 19 de Maio de 1954, metaforizando a violência do comboio esse clima de insegurança que se vivia no Alentejo: â€œÓ Alentejo, ó corpo ardente, / como o comboio te esfacela! / Sofres o golpe serenamente: nem te perturba / a sombra turva / que se debruça da janela… // Depressa vem a cicatriz. / Sobre essa chaga desmedida, / ficam apenas os carris, /num brilho de aço, / lívido, baço / – como a costura duma ferida!”
Observe-se como o motivo dos carris no álbum fotográfico Lisboa Luzes e Sombra (1992), mais especificamente no poema décimo quarto, que apresenta uma simbologia nos antípodas desta, a marcar a intencionalidade alusiva de violência do poema «Nocturno de um Comboio no Alentejo». Lemos em Lisboa Luzes e Sombra os seguintes dois dísticos: “Sobre a ardósia do empedrado / curvas e rectas feitas a giz // problema simples e complicado / a geometria destes carris”. Na foto que o acompanha, vemos que são estes os carris da curva do eléctrico, no Largo do Corpo Santo, ao fundo da Rua de São Paulo e no fim da Rua do Arsenal. Se nos ativermos apenas ao que sabemos da história da cidade, lembramo-nos de um cenário nas proximidades do local do regicídio, o que não joga com o tom “escolar” da poesia a evocar problemas de aritmética num quadro de ardósia. Estes carris já não são cicatrizes, como no «Nocturno do Comboio no Alentejo». São linhas de um problema de geometria, simples e complicadas, como a infância, desenhadas numa imaginária ardósia, suspensa nas brumas da memória. E é justamente aqui que nos facilitam a compreensão alguns dados da infância do autor, para nos mostrarem como Lisboa Luzes e Sombras é ainda um regresso às origens. A Rua de São Paulo, o Largo do Corpo Santo, a Rua do Alecrim em direcção ao Chiado, são percursos habituais dos seus passeios infantis, das suas idas ao Cinema Promotora. Cinquenta e três anos mais tarde, ao escrever o poema sobre estes lugares, assoma-lhe nos dedos o traçado geométrico das linhas da ardósia da infância, a pasta carregada das memórias do tempo. Será ainda uma homenagem aos lugares das suas raízes a escolha de uma herdade no Alentejo, para situar o lugar onde decorreu a inesperada infância da enigmática estrangeira Y, do romance Um Amor Feliz, em contexto igualmente relacionado com Lisboa, ou seja, com os dois primordiais espaços radiculares do autor do romance: “[…] E a discreta saudade com que amiúde fala do pai; e o fugidio colorido com que às vezes evoca a sua infância, quase toda passada numa grande herdade do Alentejo; ou de modo ainda mais esquivo, a adolescência repartida entre o Liceu Francês de Lisboa […].” (AF: 41)
O volume de poesias Os Ramos Os Remos coexiste com a escrita do romance Um Amor Feliz, que decorreu entre 1982 e 1986. Assim, o tema da terra dos seus avós surge naquela colectânea representado no poema «Campos do Alentejo», já não no tom violento que vimos no comboio que revolve a terra, mas em tom melancólico, que a seu modo despedaça a alma:
«Áreas que só na alma / encontram suas árias // mas não virão guitarras / à noite acompanhá-las // Nem o voo das harpas / Nem da neve os fantasmas // Um coro de chaparros / em brados abafados // é sempre o que lhes cabe / é sempre o que lhes basta // Ó crua luz da tarde / logo que a manhã nasce // Por mais que a noite caia / na cal tudo ressalta // E a sombra de um arado / como um A muito amargo // ao qual se limitasse / todo o abecedário // De guerras tantas grades / de fomes tantas pragas // nas lavras destas áreas / os tempos semearam // Abre-me ó terra os braços / como só tu os abres / / até mais graves / sabem tornar-se aqui as aves »
Para interpretarmos este poema, é importante conhecer a data da sua escrita, que não vem mencionada na obra, mas que apurei no mauscrito: 1984. Se contarmos as vezes que neste poema comparece a letra “a”, chegamos à curiosa conclusão de que são exactamente oitenta e quatro vezes, tantas quantas os dois dígitos finais do ano em que foi escrito. Não acreditemos em acasos num poeta meticuloso e ardiloso como DMF. A letra é duplamente simbólica, por ser a inicial do nome da província das raízes familiares e por ser a primeira letra da palavra “Amor” agora lido em contexto de amor à terra das suas raízes: “E a sombra de um arado / como um A muito amargo” da vida triste, difícil, dura de quem lá vive: “O coro de chaparros em brados abafados”. Espaço desolado nesta música, em aliteração de “áreas / árias”. A tristeza invade a voz das aves, numa simbolização dolente de míngua, de escassez, de fome. A intervenção social que poderíamos ver de forma explícita no poema do comboio alentejano mantém-se agora numa linha de trânsito dolente e melancólico, mas que não é nunca uma linha de via reduzida de simbolização poética de vida e morte no seio da terra-mãe: “Abre-me ó terra os braços / como só tu os abres”.
Neste dia de aniversário da sua morte, nós, os seus leitores, abrimos-lhe também os nossos braços, abrindo os livros que nos deixou.

Teresa Martins Marques

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Sobre a autora Teresa Martins Marques



Teresa Martins Marques,uma das mais profícuas ensaístas da literatura portuguesa contemporânea,se destaca no Mundo das Letras por sua produção literária,pelo excelente e primoroso trabalho de investigação realizado ao longo de sua  vida. Teresa é,sem sombra de dúvida,uma grande referência para a comunidade literária.

Ensaísta,crítica literária e investigadora integrada no Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de Lisboa onde se licenciou em Filologia Românica (1975) e obteve o mestrado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea (1992).Doutoramento em Estudos de Literatura e Cultura Portuguesas (2011).

Competente,dirigiu a organização do acervo literário de David Mourão- Ferreira, na Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1997 e 2004. Autor tema da sua tese de doutoramento na Universidade de Lisboa.
Participa da direção da Associação Portuguesa de Escritores.
A expressiva obra e a trajetória acadêmica construída com talento, sensibilidade,profissionalismo e grande rigor científico revelam a força criadora da escritora Teresa Martins Marques.






por: Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada. Titular do Conselho Estadual de Cultura atuando nas Câmaras de Letras e Patrimônio Cultural.  Pertence a Academia Catarinense de Letras, Cadeira 26. Iinvestigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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