Estreia  

Os homens e mulheres de Torre Bela

"Linha Vermelha", de José Filipe Costa, propõe uma aproximação invulgar do próprio cinema: a sua abordagem do filme "Torre Bela" (1975) é uma evocação dos tempos quentes da reforma agrária e uma reflexão sobre os poderes específicos do cinema.

Os homens e mulheres de Torre Bela
"Linha Vermelha" ou a revisão metódica das imagens (e sons) de "Torre Bela"
Crítica de
Subscrição das suas críticas
135
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Os homens e mulheres de Torre Bela
Linha Vermelha Linha Vermelha recua a 1975, altura em que o alemão Thomas Harlan realiza o documentário Torre Bela, sobre a ocupação de uma grande herdade no Ribatejo, propriedade dos duques de Lafões. Este filme transformou-se num ícone do período revolucionário português: a discussão sobre a quem pertence uma enxada da cooperativa, a ocupação do palácio, o encontro com os militares em Lisboa e o processo de ...

Não haverá, por certo, muitos filmes como "Torre Bela" (1975), de Thomas Harlan. Rodado em período especialmente complexo da sociedade portuguesa, nele se acompanha a ocupação da propriedade Torre Bela, na zona da Azambuja, num processo que punha em prática o conceito de "reforma agrária" como uma forma de luta inerente ao pós-25 de Abril.

O filme de José Filipe Costa, "Linha Vermelha", evoca "Torre Bela" muito para além da lógica corrente de um making of. Trata-se de confrontar os protagonistas da odisseia de Torre Bela com as memórias das convulsões que viveram e, mais do que isso, com as memórias, imagens e sons do próprio filme de Thomas Harlan. Nesta perspectiva, estamos perante um objecto de cinema-sobre-cinema, em grande parte cúmplice de um métodico labor de crítica cinematográfica.

A questão central de "Linha Vermelha" não é: "Como é que o cinema mostrou os acontecimentos de Torre Bela?". A questão central é fundamentalmente diferente. A saber: "Como é que o cinema participou nos acontecimentos de Torre Bela?" Na prática, decompõe-se aqui qualquer ilusão "descritiva" do próprio cinema: o filme "Torre Bela" foi parte activa de tudo aquilo que se viveu em Torre Bela.

Os resultados deixam-nos uma curiosa sensação: revisitar as memórias dos filmes é, de uma só vez, reler as suas significações e repô-los no labirinto da história que integraram. "Linha Vermelha" contraria qualquer visão pitoresca (logo, televisiva) dos tempos quentes do 25 de Abril, lembrando-nos como é importante não aceitar a redução desses tempos a uma qualquer caricatura, seja ela ideológica ou moral. Afinal, foram homens e mulheres que, realmente, viveram os acontecimentos. Realmente e, por vezes, cinematograficamente.

Crítica de João Lopes
publicado 23:20 - 12 abril '12

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes